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O legado de Chávez, ou o ensaio socialista na AL

Caros amigos para colocar o legado de Chávez no seu lugar após pouco mais de um mês da sua morte, é necessário combater algumas teses que não se sustentam. Então convido a todos a ler o excelente artigo elaborado por Wallace dos Santos de Moraes, Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Ciência Política (Iuperj), publicado na Le Monde Diplomatique em 21 de março de 2013.

Desejamos uma boa leitura a todos e colabore na formação da opinião de cada um.

Arthur Sinnhofer

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O legado de Hugo Chávez e os limites da alternativa institucional

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Chávez foi um homem de muita coragem. Raríssimo nos nossos dias. Ganhou as eleições com um partido nanico e obteve a maior votação da história do país. Amparou-se na esquerda institucional e enfrentou diversos interesses na Venezuela e no mundo. Sempre de peito aberto, encarou quem quer que fosse. Até o temido George W. Bush, em meio a Assembleia da ONU, foi chamado de evil por Chávez. Criticou também Obama por continuar a política externa de seu antecessor. Encarou o rei da Espanha, cuja família real apoiou o fascismo de Franco. Ao criticar o neoliberalismo, as guerras, o colonialismo, criou tantos inimigos poderosos e os enfrentou cara a cara que morreu prematuramente, aos 58 anos. Chávez foi um homem digno, honesto e colocou a pequena Venezuela no centro do cenário internacional, ditando normas e criando modelos. Indubitavelmente entrará para a história.

Para colocar o legado de Chávez no seu lugar é necessário combater algumas teses que não se sustentam. A primeira é propalada por alguns grandes meios de comunicação que teimam em chamá-lo de ditador para baixo e induzir a entendermos que existe uma grande massa de venezuelanos contra o seu governo. Trata-se de conjecturas insustentáveis do ponto de vista factual. O governo Chávez foi o que mais respeitou a Constituição do país e a ampla maioria da população esteve ao seu lado.

A segunda tese é defendida pelos chavistas quando afirmam estar em curso na Venezuela uma revolução que seria responsável por estabelecer o “socialismo do século XXI”. Com efeito, de antemão afirmamos que o governo de Chávez não acabou com o capitalismo, nem proporcionou o autogoverno popular. Destarte, não tocou nos principais aspectos da exploração e do absurdo de ser governado por outrem. Assim, já podemos descartar as alusões ao socialismo ou ao poder popular ditas por seus defensores. A Venezuela continua capitalista e com uns governando outros.

Seu grande feito, portanto, baseou-se na sua luta bastante exitosa contra o neoliberalismo. Mas dada a existência maciça de governos neoliberais no mundo, bem como do recuo das perspectivas socialistas, sua luta apresenta-se similar a uma luta revolucionária.

Feitas essas importantes ressalvas, analisemos o governo de Chávez como fazem os analistas de plantão, bem pagos pela mídia, amarrados pela camisa de força da institucionalidade capitalista. Todavia adiantamos que nossas conclusões serão absolutamente diferentes daquelas.

Entendamos, primeiro, a vida pessoal de Chávez. Quando assume a presidência, ele é tenente-coronel paraquedista do exército. É importante decodificar o significado disso no mundo militar. Paraquedista constitui a tropa de elite de qualquer exército e, portanto, o maior status possível com indumentárias distintas etc. Para chegar a tal ostentação é necessário fazer um curso de sobrevivência que poucos conseguem terminar. Por consequência, essas informações devem nos ajudar a decifrar a proeminência que Chávez sustentou junto às forças armadas da Venezuela, possibilitando-nos compreender como um presidente que realizou tantas transformações manteve-se no poder por tanto tempo, sobrevivendo, inclusive, a um golpe militar.

Além disso, Chávez fez mestrado em ciência política e, portanto, não podemos tratá-lo como um ignorante de modelos de organização societal. Outrossim, sempre foi pessoa de ação, quando era ainda apenas um oficial de baixa patente na década de 1980, montou um grupo político clandestino, dentro do exército, com vistas à transformação do país.

Para entendermos o fenômeno Chávez é mais do que necessário recorrermos à história da Venezuela. Em linhas gerais, o país viveu sob ditaduras por décadas. Entre 1889 e 1958, somente por três anos (de 1945 a 1948) teve um governo de centro-esquerda, do partido da Ação Democrática (AD), que chegou ao poder por meio de um golpe e saiu por outro. Durante todo o restante do tempo, viveu sob governos militares nada generosos com os trabalhadores.

A partir de 1958, a política foi pautada pelo Pacto de Punto Fijo, caracterizada pela alternância no poder dos dois principais partidos do país, AD e COPEI (Democrata Cristão, de direita). Esses governavam em comum acordo; quando um ganhava, chamava os principais líderes do outro grupo para ocupar pastas no Estado. Os partidos mais críticos do sistema não tinham quaisquer chances de participar do pleito e ganhar. Esse processo funcionou sem grades problemas até 1989, quando assume Carlos Andrés Pérez.

Logo no primeiro mês em que assumiu a presidência da República, Pérez aplicou políticas neoliberais de “austeridade”. Privatizações, corte de gastos públicos, aumento do preço da gasolina, das passagens de ônibus, dos alimentos etc. Tudo isso somado ao arrocho salarial foram as principais políticas do governo. Resultado: milhares de pessoas vão às ruas e iniciam um quebra-quebra, seguido de saques e passeatas. Essas manifestações ficaram conhecidas como o Caracazo. Desde então, a população venezuelana não saiu mais das ruas. O governo Chávez se autoproclama como resultado desse movimento.

Em 1992, Chávez, então tenente-coronel do exército, tenta um golpe militar contra o governo de Andrés Pérez, marcado pelo neoliberalismo e pela corrupção. Chávez é capturado e negocia sua rendição com alguns minutos na televisão. Ao falar contra o governo e o neoliberalismo ganhou adeptos importantes no meio popular. Estava aberto o caminho para sua trajetória política.

Em 1998, concorre nas eleições e ganha com o maior percentual de votos da história da Venezuela. Lá o voto não é obrigatório. Com efeito, logo após a assunção do Poder Executivo por Chávez, alguns movimentos populares fizeram ocupações de prédios abandonados no centro de Caracas. Era o grande teste com o governo. Chávez atendeu as reivindicações e desapropriou os prédios para os manifestantes. Indubitavelmente, foi um governo diferente de todos os demais da Venezuela.

Entretanto, o que distinguiu o governo Chávez? É preciso saber interpretar o contexto para responder a essa questão. Chávez assume o governo em 1999, auge do neoliberalismo. Naquele momento, as chamadas liberalizações estavam sendo colocadas em prática em todo o mundo e estão até hoje. Seu governo é o primeiro a romper com o consenso de Washington em toda a América Latina, quando outros afirmavam que era impossível lutar contra as forças do mercado. Assim, por não seguir as determinações dos grandes capitalistas no mundo e no seu país, sofreu o golpe de Estado de 2002.[1]

Podemos dizer que o supracitado governo foi o mais popular da Venezuela e aquele que mais investiu no social, isto é, em políticas públicas em favor dos pobres. Foi ao mesmo tempo, dentro da institucionalidade burguesa, aquele que mais deixou livre as ideias na Venezuela, portanto, foi o mais democrático e pluralista. Foi no seu governo que várias medidas de democracia direta foram impostas como referendos e plebiscitos.

Os grandes conglomerados de mídia mundial faltam com a verdade quando afirmam que não existe liberdade de imprensa no país. São vários os canais de televisão e jornais de oposição que criticam o governo dia e noite. Existe apenas um canal estatal que defende o governo, também dia e noite. Há, desta forma, uma grande guerra midiática no país, que por incrível que pareça é importante para a população ter acesso ao contraditório.

Voltemos a Chávez.

Foi sob seu governo que o analfabetismo foi extinto do país. Distribuição de terras, de casas, alimentos subsidiados com preços abaixo do mercado, incentivo para criação de cooperativas de meios de comunicação alternativos foram algumas das medidas populares do governo. Também renacionalizou e reestatizou empresas antes privatizadas sob o jugo das ideias neoclássicas. Implantou o médico de família em convênio com Cuba, de modo que nos bairros existisse um ou mais postos de saúde para atender a população. Criou uma universidade e investiu pesado em educação. Além de promulgar novos direitos trabalhistas, algo exatamente na contracorrente da tendência mundial.

A despeito das previsões dos teóricos neoliberais, as políticas socialdemocratas de Chávez reduziram o desemprego no país a menos da metade e fizeram que o crescimento do PIB fosse um dos mais altos do mundo. É claro que o aumento do preço do petróleo ajudou e muito.

Só a título de exemplo, um parêntese, quando Getúlio Vargas liderou no Brasil um novo modelo de desenvolvimento estava simplesmente seguindo a tendência mundial. Chávez resgatou o modelo de capitalismo de Estado, seguindo na contra-mão da tendência mundial, caracterizando toda sua coragem e inovação.

No plano externo, foi o principal responsável pela reorganização da Opep. Enfrentou discursivamente os EUA e seus governos autoritários. Também fez escola na América Latina, proporcionando o fortalecimento de Evo Morales, na Bolívia, de Rafael Correa, no Equador, e de Cristina Kirchner, na Argentina, que não seguem à risca o modelo neoliberal. Combateu com veemência a possibilidade da Alca e propôs a Alba. Ajudou a colocar na pauta do dia a ideia do socialismo e da revolução, ainda que como termos ressignificados. Enfim, Chávez liderou a resistência ao imperialismo na América Latina.

Simultaneamente, os movimentos mais moderados, ampla maioria, formaram a base social do chavismo, portanto, estiveram lado a lado com o Executivo. Seu governo foi estritamente institucional e legalista. Tudo que foi realizado esteve de acordo com as leis do país para o bem e para o mal. O movimento chavista também foi responsável por reacender as esperanças institucionais dos movimentos sociais que estavam, como em praticamente todo o mundo, muito descrentes.

Durante a década de 1960, estas opções políticas eram lidas como socialdemocratas. Hoje podemos lê-las da mesma maneira na Venezuela? Pensamos que sim. Se entendemos que as políticas socialdemocratas na Europa foram postas em prática a partir das reivindicações do movimento operário; na Venezuela, é o amplo movimento popular organizado o combustível do chavismo. O próprio Chávez é resultado desse movimento popular e não o contrário.

Não obstante as políticas sociais em prol dos mais necessitados e o combate eficaz ao neoliberalismo, algumas ações governamentais foram em contrário a interesses de determinados grupos políticos mais radicalizados. Com efeito, as propostas mais radicais no seio dos movimentos sociais foram rechaçadas e reprimidas pelo governo. No plano interno, várias ocupações de fábricas e de prédios foram vistas com maus olhos e tratadas como caso de polícia. Um dos fatos de cunho internacional que evidenciam essa premissa foi a entrega de um dos líderes das Farc-EP ao governo de ultradireita da Colômbia.

Por fim, e o mais importante, embora a maioria da população estivesse apoiando a revolução e o socialismo, seu governo não estabeleceu como meta acabar com o capitalismo. A exploração continuou, apesar de todo esforço discursivo do presidente. As poucas cooperativas estão sob o jugo do mercado e não colaboram para a autogestão socialista. O povo não conseguiu o gostinho do autogoverno. O discurso socialista e revolucionário de Chávez contrastou frontalmente com a ação da burocracia estatal e esteve muito mais para sociedade do espetáculo (nos termos de Debord) do que para prática real.

Sem embargo, o capitalismo não foi superado, mas as condições para a superação estão dadas. Os termos de socialismo e revolução estão na pauta do dia. O povo tem plena consciência de que seus interesses são absolutamente distintos dos das elites. Agora estão no grande paradoxo: ou se avança a revolução com os movimentos populares tomando as rédeas do processo, criando as comunas e fazendo as expropriações; ou corre-se sério risco de se estagnar naquilo que já foi ganho e começar a perder aos poucos os direitos com a reorganização da direita, no obstáculo do burocratismo e nas lutas internas e cisões criadas no próprio movimento na luta incessante por cargos no Estado. A grande pessoa agregadora não existe mais. Ninguém tem o mesmo carisma de Chávez para manter unida a diversidade do movimento.

No curto prazo, nada de novo acontecerá em função da comoção nacional em torno da morte de Chávez. Não existe a menor possibilidade de o candidato escolhido pelo ex-presidente sair derrotado nas próximas eleições. Então, trabalhemos com a vitória de Nicolás Maduro. Durante esse tempo, as elites econômicas trabalharão incessantemente para desestabilizar o governo recém eleito, a economia… o país, criando o clima da derrota inevitável do candidato do chavismo. Inclusive, um novo golpe militar não pode ser descartado. As greves patronais, as manifestações dos estudantes da elite, a sabotagem na economia, o “sumiço” de produtos etc. tudo que foi realizado contra Chávez será reeditado. O que sustentou Chávez no poder foi a aliança cívico-militar. Maduro é civil e dificilmente terá o respeito dos militares como ocorreu com o coronel paraquedista. A tendência, portanto, é a derrota do chavismo no médio prazo.

Assim, a única maneira de se impedir a derrota é avançar na revolução rapidamente. O poder tem que ser transferido ao povo e isso deve melhorar qualitativamente a vida de cada um. Do contrário, será difícil para o chavismo manter o poder. A previsão é de instabilidade constante, tal como foi durante todo o período da Era Chávez, mas sem a figura estrategista e carismática principal.

A morte de Chávez deixou os movimentos sociais diante de um grande dilema: unidade no socialismo autogestionário, com criação de comunas federadas para acabar com o Estado, sua corrupção, seus burocratas; ou perda do que foi conquistado durante o chavismo e resistência individual diante da repressão que virá para desarticular e desarmar o movimento social.

Enfim, Chávez tinha todas as características para levar os venezuelanos ao socialismo, pois era destemido, perseverante e valente. O povo mais pobre da Venezuela apresenta-se como claramente socialista. Então, por que não avançou? Podemos observar, a partir destes fatos, que por meio da institucionalidade burguesa não há condições de alterações substantivas que proporcionem ao trabalhador e ao seu coletivo a posse dos produtos do seu trabalho, o fim da propriedade privada dos meios de produção e a ausência de um governo que determine o que os outros devem fazer. Em resumo, a institucionalidade burguesa constitui-se em uma camisa de força que prendeu os trabalhadores ao capitalismo, obliterando a plena liberdade e o autogoverno.

Por conseguinte, sua morte deixou alguns ensinamentos. 1) a burocracia estatal emperra o avanço da revolução.[2] A corrupção inerente a todo Estado continua em pleno vigor. 2) um movimento revolucionário não pode ficar à mercê apenas de uma pessoa. Quando ela morre, o movimento fica órfão e praticamente sem rumo. É o estado da Venezuela atualmente.

Nessas condições, o máximo que se pode conseguir é a criação de direitos, ampliação da participação popular por meio de voto, uma melhor circulação de ideias e a reversão de uma das faces do capitalismo, o neoliberalismo. Indubitavelmente, esses fatores em seu conjunto apresentam-se como extraordinários para os nossos tempos de recuo das ideias socialistas. Todavia, a análise sobre o governo Chávez demonstra que não é possível a conquista da emancipação pelo meio institucional. Podemos até entender, no máximo, que foram dados os primeiros passos, mas inegavelmente foram insuficientes. Os passos para a emancipação – isto é, a liberdade, a igualdade, o autogoverno e a apropriação coletiva daquilo que for produzido na sociedade – só serão possíveis pela ação dos próprios trabalhadores.

Conclui-se que a partir de uma perspectiva socialdemocrata, ou de capitalismo de Estado (nos termos de Chomsky), o governo Chávez é um excelente exemplo. Realizou distribuição de renda e de terras, criou direitos sociais, institucionalizou a participação popular, interveio fortemente na economia, através de estatais, da regulação de preços etc. Pari passu, manteve os principais princípios do capitalismo, como a propriedade privada dos meios de produção, a divisão social do trabalho, e uns governando outros (nos termos de Mészáros). Destarte, ainda está muito longe para poder ser chamado de socialista, mesmo que o termo seja ressignificado, ele não pode conter os princípios basilares do capitalismo, o regime opositor. Chávez lutou, mas não conseguiu. Indubitavelmente, o socialismo será obra dos próprios trabalhadores.

 

Wallace dos Santos de Moraes

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Ciência Política (Iuperj). É autor de Brasil e Venezuela – histórico das relações trabalhistas de 1889 até Lula e Chávez (Rio de Janeiro: Achiamé, 2011). Áreas de interesse: Relações trabalhistas, América Latina, Venezuela, Variedades de capitalismo. Email: wmoraes@ifcs.ufrj.br; site: www.wallacemoraes.com.br

[1] Sobre o golpe de Estado sofrido por Chávez em 2002, defendemos a tese de que ele só consegue voltar à presidência do país por dois simples motivos: 1) era militar, paraquedista, e por consequência tinha amigos na tropa de elite do exército; 2) o amplo apoio popular. Suspeitamos que sem uma dessas características seria difícil desfazer o golpe em curso.

[2] O que se fala na Venezuela, sobretudo no campo do chavismo, é que a burocracia não adotou os preceitos do presidente e emperrou o avanço ao socialismo.

O ensino livre de competição, o modelo finlandês

Caros leitores, segue abaixo na integra a matéria do jornalista Philippe Descamps no Le Monde Diplomatique publicada em 01 de março de 2013, quanto ao  sistema de ensino na Finlândia que se consolida há anos como um modelo de igualdade no ensino. A condição é atestada pelos excelentes resultados que o país escandinavo apresenta nas pesquisas. Desejo a todos uma boa leitura e deixemo-nos levar pela possibilidade de aplicação desse método no Brasil.

Até breve, Arthur Sinnhofer

O modelo finlândes: unanimidade

por Philippe Descamps

 

Educação

Para entrar na escola primária de Rauma, na costa do Golfo de Bótnia, na Finlândia, não é preciso atravessar portões nem muros. Simplesmente se passa por uma garagem grande com uma bicicleta e jogos. Do ginásio à sala de música, tudo parece ter sido projetado para acolher as crianças. Em 45 minutos de curso, a professora de inglês encadeia cinco atividades diferentes. Ela capta a atenção já nos primeiros segundos, graças a uma bola que circula no mesmo compasso que a palavra. Um dispositivo que não é desconhecido nas salas de aula de outros países, mas, com uma média de 12,4 jovens para um professor finlandês – ou seja, um dos melhores índices para o ensino primário na Europa –, ele parece particularmente eficaz aqui.

Em meados de agosto de 2012, Fanny Soleilhavoup e Fabienne Moisy acompanharam os filhos em um segundo retorno a esse país. Professoras francesas com disponibilidade para acompanhar os maridos, elas não imaginavam que a escolha que fizeram em favor da escola local, em vez do estabelecimento francês à sua disposição, mexeria com sua visão de educação. “Meus três filhos estão se transformando em pessoas de bem”, acrescenta Claire Herpin, decidida a permanecer longe da França. “Nós respeitamos suas diferenças. Eles respeitam os outros. Os professores sabem como incentivá-los e como reforçar o que há de melhor neles.” Dislexia, simples perda de interesse ou precocidade, essas famílias estavam diante de situações até comuns, mas que o sistema francês dificilmente levaria em consideração.

Alguns vão achar difícil acreditar no que elas descrevem: uma escola sem tensão, sem competição entre os alunos, sem concorrência entre as instituições, sem inspetores, sem repetência, até mesmo sem nota nos primeiros anos, e que teria os melhores resultados do mundo.

As pesquisas do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) suscitam grande preocupação na Alemanha e no Reino Unido, enquanto na França e nos Estados Unidos, mais bem classificados, elas são pouco comentadas. Apesar de seus investimentos na educação, esses grandes países aparecem apenas na média da OCDE para as capacidades de jovens de 15 anos em compreensão da escrita, matemática e ciências.1Além do rigor metodológico que visa descartar qualquer viés cultural, essas avaliações têm a vantagem de não tratar do aprendizado de um programa, mas de um conjunto de competências úteis para entender o mundo e resolver problemas nos contextos próximos da vida cotidiana.

Essas investigações revelaram Helsinque como um modelo inesperado. No resultado de 2009, que levava em conta 65 países, assim como nos três anteriores (2000, 2003 e 2006), a Finlândia aparece no grupo dos melhores desempenhos globais, como a Coreia do Sul e muitas cidades asiáticas parceiras da OCDE (Xangai, Hong Kong e Cingapura). É também o país (com a Coreia do Sul) cujos resultados são os mais homogêneos e no qual as correlações entre o meio socioeconômico e os desempenhos escolares parecem as mais fracas. Noventa e três por cento dos jovens finlandeses concluem o ensino médio, contra apenas 80% em média nos países ocidentais.2 O país se destaca, é verdade, por um dos mais baixos níveis de desigualdade social da OCDE.

Os resultados do Pisa atraíram um novo tipo de turista. Após uma visita em agosto de 2011, o então ministro francês da Educação Nacional, Luc Chatel, explicou: “Há uma série de receitas que vi funcionar aqui, que podem ser transpostas”, sobretudo “a grande autonomia dada às escolas”.3 Um ano depois, a revista britânica Socialist Review elogiava um sistema “desprovido de avaliações” e no qual “cada criança recebe um almoço saudável ao meio-dia”.4 Quer venham da direita liberal francesa ou do trotskismo inglês, cada observador estrangeiro vem fazer sua feira, em busca dessa ou daquela inovação que, isolada do resto, validará seu próprio projeto.

Na maioria das vezes, a imprensa internacional ignora as condições específicas da gênese do “modelo”, ao qual várias obras cativantes foram consagradas.5 No entanto, aqui, “descentralização” não é sinônimo de territórios em competição; falar de “envolvimento” dos professores não se resume à vontade de aumentar suas horas de “presença” nas escolas; e promover a “moderação” das despesas não disfarça o desejo de favorecer prestadores privados. “Esqueçam o Pisa!”, dispara Jukka Sarjala, um dos arquitetos da reforma escolar na década de 1970. “É claro que estamos orgulhosos desse reconhecimento do nosso trabalho. Mas temos de olhar para nosso sistema como um todo, e não bicar esse ou aquele aspecto.”

O sucesso finlandês tem suas raízes na tradição política dos países nórdicos, ligada às realizações concretas do Estado de bem-estar social, mais do que a uma doutrina. Instado a revelar a elogiada receita pedagógica em uma mesa-redonda da rede de televisão norte-americana PBS, em 10 de dezembro de 2010, o professor Pasi Sahlberg respondeu com um amplo sorriso: “Você sabe, entre nós a escola é gratuita para todos, desde o curso preparatório até a universidade!”. Com base nesses pressupostos, é difícil levar adiante comparações com o modelo dos Estados Unidos…

Na Finlândia, a gratuidade não se aplica apenas ao ensino. Até os 16 anos, todos os suprimentos são bancados pela comunidade, bem como o apoio escolar, a cantina, as despesas de saúde e o transporte para a instituição. O financiamento vem principalmente dos 336 municípios, mas o Estado central harmoniza a distribuição dos recursos. Se por um lado ele participa com apenas 1% do orçamento da escola no município mais rico, Espoo (perto de Helsinque), por outro, ele garante 33% dos recursos na média dos municípios,6 chegando a até 60% nas comunidades pobres. O governo também desestimula a abertura de escolas privadas. Elas praticamente desapareceram na década de 1970 (menos de 2% dos efetivos, contra 17% na França), com exceção de escolas associativas de pedagogias alternativas, do tipo Steiner ou Freinet.

Esse serviço público unificado não se mostra particularmente caro, muito pelo contrário. Em paridade de poder aquisitivo, a Finlândia gasta menos dinheiro por aluno no ensino primário e secundário do que a média dos países ocidentais, e muito menos do que os Estados Unidos ou o Reino Unido.7 A ênfase foi colocada na qualidade da supervisão, no número e na formação dos professores: a profissão do magistério tornou-se altamente respeitada e muito cobiçada, ainda que exija uma longa formação (pelo menos cinco anos de universidade, em geral mais) e que os salários acompanhem mais ou menos a média ocidental:8 significativamente mais altos do que os salários franceses no início de carreira (36% mais no fundamental, 27% no médio), eles se aproximam no fim da carreira. Apenas um candidato a professor em dez atinge seu objetivo. Também se espera dos docentes um envolvimento tão forte que não é incomum que alguns confiem seu número de telefone ou endereço de e-mail aos pais. Uma boa parte da formação (no mínimo um ano) não é dedicada ao conteúdo a ser transmitido, mas à pedagogia: a maneira de transmitir.

 

Ameaça no horizonte

Enquanto o modelo internacional se baseia em indicadores de desempenho, auditorias e rankings, os pedagogos finlandeses defendem outro uso das avaliações. Elas devem continuar a ser uma ferramenta para ajuste dos meios ou dos métodos a serviço do desenvolvimento de professores e crianças, nunca uma ferramenta de controle ou de competição. É por isso que as avaliações são realizadas por amostragem, e não em nível nacional. Cada um fica sabendo de seus resultados, mas não os de outras escolas. Vários municípios também lutaram contra os jornais que queriam publicar as classificações. E, quando os tribunais deram perda de causa à administração, boa parte da imprensa preferiu guardar silêncio.

“Na década de 1990, encorajou-se a competição entre as escolas, e um conservador eleito de Helsinque chegou a convidá-las a fazer publicidade. Hoje entendemos que foi um erro”, explica Susse Huhta, professor de finlandês em Helsinque. Com a abolição da obrigatoriedade de frequentar a escola de seu bairro, a busca pelas escolas mais conceituadas, até então marginal, tornou-se um fenômeno importante na capital, onde 30% das crianças no oitavo ano (13 anos) não frequentam o estabelecimento da sua região. Isso só fez provocar um rápido crescimento das desigualdades sociais na Finlândia, segundo Tuomas Kurttila, diretor da Associação de Pais: “Nossa política educacional corre o risco de se tornar uma simples vitrine, enquanto nossas políticas sociais se degradam. Os sucessos de hoje foram construídos nas décadas de 1970 e 1980. O sucesso de amanhã se constrói hoje. Ainda há muitas crianças que não vão além da escolaridade obrigatória. Estou otimista, mas temos de permanecer vigilantes diante do crescimento das disparidades”. “Pedimos à escola que responda a todos os problemas da sociedade, algo que ela dificilmente pode fazer”, acrescenta Petri Pohjonen, vice-diretor do Escritório Nacional de Educação.

Depois de ter dirigido por um longo tempo uma escola e em seguida o departamento de ensino da cidade de Vantaa, vizinha a Helsinque, Eero Väätäinen resume um sentimento generalizado entre os professores finlandeses: “Devemos ter em mente que as crianças não estão na escola para passar nas provas. Elas vêm aprender a vida, encontrar seu próprio caminho. É possível medir a vida?”. No país europeu mais bem colocado nos rankings internacionais, as pessoas veem com muita desconfiança… os rankings.

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1 OCDE (2011), Résultats du Pisa 2009 [Resultados do Pisa 2009], em seis volumes, Edição OCDE, Paris.
2 Estatística da OCDE, 2010.
3 “En visite en Finlande, Chatel prépare la rentrée et 2012” [Em visita à Finlândia, Chatel prepara o retorno em 2012], Les Échos, Paris, 19 ago. 2011.
4 Terry Wrigley, “Growing up in Goveland: how politicians are wrecking schools” [Crescer em Goveland: como os políticos estão destruindo escolas], Socialist Review, Londres, jul.-ago. 2012.
5 Paul Robert, La Finlande: un modèle éducatif pour la France? Les secrets de la réussite [Finlândia: um modelo educacional para a França? Os segredos do sucesso], ESF Editor, 2008. Pasi Sahlberg, Finnish lessons: what can the world learn from educational change in Finland? [Lições finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional na Finlândia?], Teachers College Press, 2011. Hannele Niemi, Auli Toom e Arto Kallioniemi, Miracle of education, the principles and practices of teaching and learning in Finnish schools [Milagre da educação: os princípios e práticas do ensino e do aprendizado nas escolas finlandesas], Sense Publishers, 2012.
6 Dados do Escritório Nacional de Educação, agência independente encarregada do acompanhamento dos programas e da avaliação do ensino médio e fundamental.
7 OCDE, Regards sur l’éducation [Olhares sobre a educação], 2010.
8 Idem

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